26 de dezembro de 2010
Papel de pão
Quando foi que seu salário aumentou mais de 100%? Quando foi que você decidiu de quanto seria o reajuste do seu salário? Tenho quase certeza de que sua resposta é NUNCA, estou errado?
Pois nossos digníssimos senadores e deputados federais precisaram de apenas 5 minutos para votar e aprovar o aumento de seus vencimentos mensais. Os aumentos serão, em média, de 60% - exorbitância que eles justificaram com o fato de estarem sem aumento desde 2007. No caso do presidente da república, o aumento foi de mais de 130%, me parece.
Pergunto: a inflação subiu 60% ao longo desses anos? Ainda que houvesse subido, o impacto não teria sido apenas nos bolsos dos coitadinhos do planalto, mas no meu bolso, no seu, no da sua família. Você recebeu alguma compensação por isso? Seu salário aumentou 60% em média?
O que me deixa ainda mais indignado é que para aumentar em dez reais o salário mínimo dos trabalhadores e dos aposentados, eles enrolam, enrolam e aumentam em 5 reais, porque mais do que isso quebraria a previdência, comprometeria o orçamento dos próximos anos e tantas outras desculpas esfarrapadas mais.
Não entendo com que cara de pau o presidente Lula consegue registrar em cartório as realizações de seu governo, fazendo cerimônias e um alarde danado para mostrar os seis volumes caprichosamente encadernados. Lula foi, certamente, um dos governantes que mais fez pelos pobres e miseráveis do Brasil. Nunca antes na história deste país, o povo recebeu tantas migalhas.
Mas são migalhas. Poderiam estar num papel de pão qualquer.
As verdades estão escancaradas para quem quiser enxergá-las. Todos os dias, basta abrir um jornal, assistir a qualquer noticiário na tv ou escutar o rádio para ser bombardeado por corrupção, fraudes, impunidade... A gente sabe de tudo que se passa, a gente sabe que eles são ladrões.
Quando é que a gente vai pra rua reclamar?
24 de janeiro de 2009
Reflexão sobre a nova ortografia
O caso é que uma internauta identificada como Carina afirmou que prefere deixar de ser portuguesa a ver a gloriosa língua de Camões submetida às regras de grafia brasileira. Em primeiro lugar, de onde ela tirou que a escrita foi atualizada segundo moldes brasileiros? Além disso, será que essa pessoa realmente crê que um c ou um p a mais ou a menos fazem o português dela melhor que o meu? A meu ver essa menina ignorou, intencionalmente ou não, o tênue limite entre nacionalismo e xenofobia. Na certa ela esqueceu que boa parte do que Portugal e outros países europeus ostentam como riqueza tem alicerces na miséria das Américas, da África e da Ásia, depois de séculos a fio de exploração desenfreada, escravidão, genocídio, contrabando e tantas outras formas de vampirismo aqui cometidas. Mas nada disso é culpa dela, não é coisa do seu tempo. Então, já que lá no fórum eu caí na leviandade de chamar Carina de imbecil, aqui deixo o desabafo de lado e agradeço a ela por me motivar a refletir e escrever, pois também sou contrário ao acordo ortográfico, embora por razões diferentes.
A primeira razão é não ter fé nos argumentos em defesa de tal mudança. Um deles é dizer que com a padronização uma língua se fortalece e perpetua, com possibilidades de conquistar maior influência no mundo. Eu posso estar redondamente enganado — e admito que as chances disso não são poucas —, mas considero praticamente impossível unificar o que é múltiplo desde as raízes. Basta pensar na miscigenação do povo brasileiro, na pluralidade étnica da África, nos contrastes socioeconômicos existentes entre os países lusófonos, para imaginar que a língua irá evoluir de formas diferentes, modificando-se de acordo com aquilo que cada realidade local inspira, sugere e demanda. Ninguém se lembra que, sobretudo na Ásia e na África, a comunicação diária se faz através das centenas de dialetos e línguas locais, embora inglês, francês, português etc. sejam os idiomas oficiais.
Dizem também que, uma vez unificada sua ortografia, a língua portuguesa passa a ser reconhecida como um dos idiomas oficiais perante a ONU, ganha em representatividade portanto. Eu não estarei vivo para ver o dia em que o Timor Leste terá algum posicionamento relevante diante do Conselho de Segurança, nem quando Guiné Bissau exercerá alguma influência sobre o FMI; e ainda que esse dia chegue, certamente não será porque 250 milhões de pessoas passaram a escrever igualzinho. Está nítido que não existe lógica nesse raciocínio, há aí uma inversão de causas e efeitos. O inglês, o francês e o alemão são idiomas influentes porque seus países de origem têm empresas e investimentos espalhados pelo planeta. Com a abertura da China, não é à toa que aprender mandarim está tão na moda atualmente! Dessa forma, afirmo ser de suma importância que Brasil e Portugal, assim como os outros países, invistam em educação e ciência caso almejem de fato livrar-se da dependência econômica e tecnológica, pois não será um acordo ortográfico que irá colocá-los em patamar de maior importância. Ou será que alguém arrisca afirmar que os EUA e a Inglaterra, por exemplo, se desenvolveram, enriqueceram e vêm espalhando seus tentáculos pelo mundo porque têm escrita padronizada?
Aos dois argumentos que mencionei e rechacei anteriormente, contraponho outros dois que a meu ver são muito mais relevantes como motivos para o novo acordo ortográfico. Antes disso, fique claro aqui que sou leigo em questões sobre economia, política e afins, mas é sobre esses assuntos que levanto meu questionamento. Pois bem, uma das razões justificáveis para a insistência em aprovar a nova lei é política, a velha e conhecida tática da procrastinação, tão usada pelos governantes brasileiros e que possivelmente também é moda por aí afora. Em vez de discutir e votar temas de importância para o povo, como educação ou saúde, entre tantos outros, perde-se tempo com esse tipo de bobagem para manter o gado distraído. O outro motivo que considero genuíno é de ordem econômica, pois certamente alguém sairá lucrando com isso. Aponto como exemplo os empresários do mercado editorial, que por conta de alguns acentos gráficos, hífens e meia dúzia de letras, irão editar e vender milhões de livros. Afinal, é de acordo com os interesses de banqueiros e empresários que se faz política e se governa um país.
De uma maneira ou de outra, fato é que cedo ou tarde a adequação à nova ortografia estará concretizada, ao menos para aqueles que usam e produzem textos em seu cotidiano, bem como para os que têm o hábito de ler. Alguns demonstrarão resistências, dificuldades, outros se esforçarão em aprender e se atualizar o quanto antes. E não será por força de lei, mas porque escrever é o tipo da coisa que se aprende pelo exemplo, por uma questão de memória visual; de tanto ler ou de tanto ser corrigido por um professor, se aprende que tal palavrinha tem acento, que a outra é com dois s etc. Se é que cabe a comparação, é como saber que roubar é errado, algo que se aprende com a família, com os meios de comunicação — não é preciso saber o artigo do código penal.
E só para não deixar de mencionar meu pesar com tudo isso, digo que apenas uma coisa me entristece de fato, muito mais que os argumentos falsos ou os motivos escusos mencionados antes. É saber que esse tipo de mudança se dá sem que se consulte a opinião de um professor, de um escritor, a minha opinião. Essa não foi a primeira vez que se discutiu um acordo ortográfico, tampouco será a última, mas até quando baixaremos a cabeça e diremos amém diante de arbitrariedades desse tipo? Até quando seremos alheios às canetadas que determinam nossos destinos?
8 de janeiro de 2009
Um bocado da beleza carioca
20 de julho de 2008
Ladainha
E lá no alto nunca vai pingar
É tanta água aqui nesse buraco
E lá no meu barraco nunca vai chegar
Como é que eu faço pra fazer minha janta?
Como é que eu dou o banho das criança?
Como é que eu fico? Só tem água em vala
E ninguém cala o que eu vim reclamar
(Refrão)
Eu quero água pra matar a sede
Eu quero água pro calor passar
Eu vim cobrar alguma providência
Eu tenho roupa suja pra lavar
É muito tempo com a mesma conversa
Eu só ouço promessa, ladainha e blá blá blá
É muito papo entra ano e sai ano
Eu entro pelo cano de tanto esperar
De onde é que veio toda essa polícia?
De onde é que veio tanta ameaça?
Pra onde é que eu vou? Juro pela Trindade
Essa verdade um dia vai vazar
Letra ainda não musicada que escrevi para o filme
do meu amigo Jemson, "Mulheres que choram".
1 de fevereiro de 2008
Buenos Aires - 2008
Com o atraso do vôo, cheguei a Buenos Aires no fim da tarde de quinta-feira, dia 24 de janeiro. No aeroporto Ezeiza foi preciso tomar um ônibus, já que lá, ao contrário daqui, o aeroporto fica bem afastado do centro da cidade. Tudo isso tornou a viagem um pouco mais cansativa, e só o que fiz no primeiro dia, depois de acertar os últimos detalhes de minha hospedagem no albergue e arrumar minha bagagem, foi sair pra comer alguma coisa e conhecer as ruas do quarteirão e adjacências. Depois disso voltei ao quarto, e com o mapa da cidade em mãos, planejei o que faria no dia seguinte.
Dia 25. Este foi meu primeiro dia como turista de fato. Acordei um pouco tarde, mas já de câmera na mão, disposto a conhecer a Plaza de Mayo, onde se localiza a Casa Rosada, sede do governo federal na Argentina.
Ao chegar às imediações da praça, que fica no coração de Buenos Aires, tive a sorte de deparar com uma grande manifestação popular bem em frente à Casa Rosada. Os motivos: parte dos manifestantes, na maioria descendentes de imigrantes, reclamava a criação de mais postos de trabalho; a outra parte (diga-se de passagem, a maior) aguardava a aparição de Evo Morales, presidente da Bolívia, que tinha compromissos com o governo argentino naquele dia. Vi o chefe de Estado a menos de 10 metros de distância, e só não tenho uma foto ilustrando isso porque chovia no momento.
Mas o grande barato foi mesmo ver de perto aquelas pessoas batendo tambores e cantando, exercendo sua cidadania, coisa que na Argentina parece ser muito comum. Passei o restante do dia passeando pelas peatonales Florida e Lavalle, grandes ruas por onde só circulam pedestres e que abrigam dezenas de lojas, galerias comerciais e restaurantes variados. É mais ou menos como o Largo da Carioca, só que em forma de corredor.
Dia 26. Sábado foi o grande dia da minha passagem por Buenos Aires. Nas primeiras horas da manhã eu já estava de pé, e após tomar o café da manhã no albergue, tomei o rumo do bairro La Boca. O itinerário já estava traçado desde a noite anterior: faria todo o caminho a pé, passando primeiramente pelo bairro de San Telmo, famoso pelos restaurantes e cafés onde há apresentações de tango. Com o mapinha na mão, e 2:30 h depois, avisto de longe o estádio La Bombonera, do famoso clube Boca Juniors.
Digo que esse foi o ponto alto da viagem pois boa parte do que me motivou a escolher a Argentina como destino é a minha ligação com o futebol, particularmente a admiração que tenho pelo futebol argentino. É evidente que torço pela seleção e clubes do Brasil, mas gostaria que nossos jogadores fossem cancheros como eles, isto é, raçudos, dedicados, decididos a vencer custe o que custar. Não foi à toa que a maior parte das minhas fotos são desse dia.
Já no interior do estádio, guias organizam visitas por todas as dependências, mostrando cada canto das arquibancadas, vestiários, salas de imprensa e inclusive é permitido pisar no gramado. Há também um museu que exibe troféus, reportagens, vídeos e muitas fotos da história do clube, que tem sua própria calçada da fama. É claro que eu tinha que tirar uma onda com o Maradona, né?
Depois de explorar La Bombonera, sentir aquela atmosfera diferente e entender o que faz desse estádio um dos templos do esporte mundial, continuei minha caminhada pelo bairro La Boca. Foi assim que cheguei ao Caminito, uma espécie de favelinha de barracos muito coloridos. Parece que essa região foi inicialmente povoada por imigrantes pobres, que se aproveitavam de qualquer sobra de tinta que encontravam pra pintar suas fachadas. Não sei se isso é verdade ou lenda, mas acabou por virar atração turística. E deu certo! É um dos lugares mais procurados pelos turistas.
Outro fato que fez desse dia especial foi o encontro com o Antônio, um bom amigo do meu pai, que mora em Buenos Aires com sua esposa e filhos. Saímos de carro e ele me mostrou alguns dos lugares mais importantes de Buenos Aires, como num city tour, e depois disso paramos num bairro chamado Puerto Madero. Esse lugar conta com muitas galerias comerciais e alguns dos melhores restaurantes da cidade. É um local charmoso, bem chique.
Depois desse passeio, tive o prazer de conhecer a casa e a família do Antônio. Todos me receberam muito bem, conversamos por muito tempo, e pra encerrar a noite com chave de ouro, depois de comermos pizza, assistimos todos juntos à partida entre Boca Jr x River Plate, o clássico de maior tradição e rivalidade na Argentina. Ah! Infelizmente deu Boca, 2x0.
Dia 27. Esse foi praticamente meu último dia em Buenos Aires, já que na segunda-feira eu passaria boa parte do tempo arrumando a bagagem para a viagem de volta, encerrando minha permanência no albergue, providenciando transporte até o aeroporto e tudo mais. Aproveitei esse dia pra fazer compras e andar um pouco mais pelo centro da cidade. Nessa caminhada, fotografei o Obelisco, monumento localizado no cruzamento das principais avenidas da cidade (Corrientes e 9 de julio), que simboliza a primeira exibição da bandeira argentina na capital federal.
Episódio triste. Depois do almoço de domingo, tomei o caminho de volta ao albergue e fui abordado, na peatonal Lavalle, por um menininho pobre. Ele distribuía pequenos panfletos e disse que se eu pedisse o cartãozinho de um determinado bar, apontado por ele, um homem o pagaria 3 pesos.
Tentando ajudá-lo caí numa armadilha muito comum na cidade: logo que entrei no bar, sem movimento naquele momento, percebi que a porta foi fechada. Vi que na verdade aquele lugar era uma casa noturna onde havia mulheres, shows eróticos, como uma termas. Fui então abordado por 2 homens, que só me deixaram sair do bar com a condição de deixar todo meu dinheiro.
Foi assim que me vi fora de meu país, sem ter a quem pedir auxílio, e com apenas 4 reais na carteira. Procurei a ajuda de dois policiais que passavam no momento, mas estes me disseram que nada podiam fazer, uma vez que eu havia entrado no tal bar por vontade própria, sem ser forçado. De fato, eu nada podia provar. Mas eu precisava de dinheiro pra pagar o transporte até o aeroporto, para a taxa de embarque (18 dólares) e para o táxi até minha casa, quando chegasse ao Brasil. A única idéia que me ocorreu foi pedir dinheiro na rua.
Injuriado, fui bufando ao albergue e fiz um pequeno cartaz, numa folha de papel que pedi na recepção. Voltei à rua rasgando a multidão a passos largos e cheguei à peatonal Florida com o cartaz e um saco plástico, disposto a vender meu relógio, meus tênis, e até mesmo os alfajores e souvenirs que havia comprado. Por tratar-se de uma das ruas mais movimentadas da cidade, não foi preciso mais do que alguns segundos com o cartaz erguido para que logo uma pequena multidão se acercasse. Pessoas me perguntavam detalhes sobre o roubo, outras me davam pequenas quantias em dinheiro, enquanto outras tantas me entregavam papéis com nomes e telefones anotados, caso eu precisasse de ajuda.
Foi a primeira vez na vida em que conheci a sensação de humilhação. É horrível estar preparado para curtir as férias, relaxar e me divertir, e ser surpreendido pela necessidade de pedir dinheiro na rua, como infelizmente faz tanta gente menos afortunada que eu. A indignação e a vergonha me faziam morder os lábios com força, tentando disfarçar o medo e a vontade de chorar. Eu não conseguia olhar ninguém nos olhos, e na primeira tentativa, as primeiras lágrimas acabaram por se misturar ao sangue que já escorria da minha boca.
Ao ver que ali se formava um pequeno tumulto, um policial apareceu e começou a perguntar o motivo da aglomeração, do meu cartaz, e após ouvir de mim os detalhes, recomendou que outro policial me levasse à delegacia. Depois de muito esperar até ser ouvido, voltei ao local do golpe acompanhado por três policiais, que recuperaram e devolveram meu dinheiro.
Se esse momento foi lamentável, foi também, de certa forma, o símbolo do muito que aprendi com essa viagem. Eu estava em outro país, usando outro idioma e sem poder contar com o auxílio de uma pessoa conhecida, parente, amigo; esses fatores algumas vezes atrapalham até mesmo a parte boa de viajar, pois dificulta um pouco a localização, a solicitação de uma informação, te faz presa fácil de um taxista desonesto, por exemplo. E quando essas dificuldades se somam a um roubo que te deixa sem qualquer recurso? Considero uma vitória o impacto que minha solução provocou. No fim das contas, tudo ficou bem e eu não teria quaisquer problemas para retornar ao Brasil. E o "barulho" que fiz com o cartaz e a manifestação a la Argentina foi tanto, que sobrou até espaço para o humor: pelo menos 2 ou 3 grupos de jovens fizeram cartazes com o texto "ABRAZOS GRATIS" e se puseram a distribuir abraços pelas esquinas da Florida.
2 de dezembro de 2007
Oh! Suzana
Oh! Suzana
“Quando eu fui ao Alabama
E toquei meu violão
Encontrei uma menina
Num cavalo alazão
Ela me pediu sorrindo
Pra tocar uma canção
Que falasse do Alabama,
De um banjo e um violão
Oh! Suzana,
Não chores por mim
Pois eu volto pro Alabama
Pra tocar meu banjo assim”
Minha primeira música na minha primeira Hering!
17 de novembro de 2007
São Lourenço - 2006
Essa foto é de uma das últimas viagens que fiz, em setembro de 2006, quando fui a São Lourenço, Minas Gerais. Minutos depois, num trem maior que esse daí de cima, saí junto com minhas amigas Aninha, Bia e Claudia pra um passeio até um lugarejo bem pacato chamado Soledade de Minas.
No caminho, a beleza da paisagem rural contrastava tristemente com criancinhas arriscando a vida nos barrancos à beira dos trilhos, recolhendo esmolas e comida que alguns passageiros atiravam pelas janelas. Fora isso, o passeio foi muito legal, com direito a violeiros, repentistas e humoristas circulando pelos vagões, fazendo todo mundo rir e cantar.
Carnaval 2007

Essas fotos aí são da 2ª feira, nosso penúltimo dia lá, minutos antes de sairmos pro bloco das piranhas no centro da cidade. A praticidade da minha roupitcha, feita de papel alumínio, me rendeu o apelido de "piranha assada" — só botar no forno e comer!
15 de novembro de 2007
Banda de um homem só
Arrebenta o assoalho da Terra
Sob os calcanhares, fendas, crateras
Essa noite, à guisa de baixista,
Dez falanges batem quatro listras
E fazem vibrar a massa sobre a pista
Essa noite o riff da guitarra traz o tom
Enlouquecidos se entregam ‘Caralho! É muito som!’
E no improviso do solo, solas saem do chão
Essa noite, entre palmas e coros, a voz
Liberta em refrão as gargantas dos nós
Num doce falsete, ecoam velados sentimentos
Em bárbaros gritos, estraçalham-se tormentos
Essa noite, entre metais e palhetas,
Um açoite de pedais e baquetas
Rasga no peito o silêncio costumeiro
E mais que homem-banda, sou homem inteiro.
Essas rimas eu dedico aos meus amigos da família Nery e ao André Roque, os maiores apaixonados por música que conheço!
11 de novembro de 2007
10 de novembro de 2007
Ao meu avô

Há algumas semanas eu vinha combinando com alguns bons amigos uma pescaria nas Ilhas Cagarras, e gostaria de ter voltado de lá trazendo fotos e recordações de momentos divertidos, mas por uma série de motivos não pudemos dar seqüência aos nossos planos e a pescaria foi adiada.
Se tudo tivesse dado certo, eu gostaria de ter tirado uma foto no barco segurando um peixe pescado por mim, só pra te mostrar. Como não deu, resolvi colocar aqui uma foto daquela nossa pescaria em Cabo Frio, junto com o Valmir, o Neca e o Seu Orlando. Aquele dia acrescenta vários motivos para que eu preste a você essa pequena homenagem, pois levarei por toda a vida muitas e boas lembranças suas, Vô. O seu jeito ranzinza que sempre me fez rir, o carinho pelos animais que ficou de herança... e se um dia eu te der bisnetos, tomara que eles gostem de Tom e Jerry e Pica-pau.
E a lembrança mais marcante desses últimos tempos é a da pescaria. Desde essa daí da foto, em todas as vezes que nos despedíamos, você dizia que quando melhorasse, marcaríamos uma nova aventura. É uma pena que não tenha dado tempo, Vô, mas onde quer que você esteja, você melhorou; e é isso o que importa pra mim.
Um dia a gente se encontra de novo, Vô. Pode apostar que esse que eu não sei se chamo de Deus, Acaso ou Destino um dia irá novamente entrelaçar nossos caminhos! E a gente vai poder ir pras nuvens, ou mesmo pra lua, pescar cometas e atirar estrelas cadentes pra alegrar um pouco a vida das pessoas queridas que ficarem aqui.
7 de novembro de 2007
Meu delírio
O fragmento desta obra, publicado no texto anterior, surge durante um diálogo entre Brás e Natureza (ou Pandora), senhora da vida e da morte, que em segundos revela ao protagonista toda a história da humanidade sobre a Terra. Obviamente esse não é um diálogo real, e sim um delírio de Brás Cubas.
Resolvi publicar o referido texto, de Machado de Assis, porque toda vez que dele me lembro, passo também por uma espécie de retrocesso que me transporta até quando o li pela primeira vez na adolescência, justamente a fase em que mais fui descrente da vida, em que mais enxerguei a felicidade como verdadeira quimera.
Pode ser uma suposição boba isso que vou dizer agora, mas que seja. Acredito que houve, desde cedo, muita expectativa em torno de mim. Fui a primeira criança do seio de minha família, primeiro filho, primeiro neto, um garoto tranqüilo que não dava preocupações maiores a meus pais, querido por amigos e vizinhos, elogiado por professores... eu vivia cercado de elogios, enfim. Não sei explicar direito o que houve, mas tantos elogios, com efeito, se converteram numa cerca, numa prisão, e me deixei levar pela lenda que se construía à minha volta, acreditei ser o herói que projetavam em mim. Ou pelo menos o herói que eu achava que enxergavam em mim.
O fato é que entre três espelhos eu acabei ficando um pouco caolho, vendo tudo por um prisma caótico, e amaldiçoava cada dia. “Dinheiro, exércitos, países, humanos... pra quê?”, praguejava eu, simpatizante da esquerda à esquerda da esquerda, com a mesma pretensão desses que acham que basta escolher um lado pra salvar o mundo. Eu queria ter um delírio como o de Brás Cubas, conhecer as dores do planeta e sair por aí como um profeta ou algum tipo de mártir, movido muito mais por um misto de vaidade e auto-piedade , do que propriamente por bondade.
Estranho é pensar em publicar esse texto em cima da hora de sair pro meu estágio. Paro e penso que nunca andei por tanto tempo no mesmo caminho, como agora na faculdade, de modo que a leitura, as aulas e o convívio fazem todas as coisas que escrevi há pouco soarem muito mais como uma recordação. Sim, é um passado que ainda se faz presente — quem me conhece sabe que não sou um poço de otimismo —, mas hoje não vivo mais a ilusão de carregar o mundo nas costas. E quem sabe um dia, como professor e/ou escritor, eu possa quiçá dar algum tipo de contribuição realmente significativa para as pessoas ao meu redor, compartilhando lições de gramática, literatura, redação e, sobretudo, de vida.
Pegar a mochila, sair por aí plantando sementes de esperança e ver perseverança brotar nos corações; no caminho de volta, ver industriais saindo dos canaviais, engenheiros das olarias, letrados das carvoarias...
Com meus agradecimentos ao Professor Marcelo Diniz,
Paredão, em quem ouso me espelhar.
O delírio
[Machado de Assis, “Memórias póstumas de Brás Cubas”]
5 de novembro de 2007
O itinerante
Em inconstantes compassos,
4 de novembro de 2007
"Trem de ferro", à luz da Fonética
http://www.revista.agulha.nom.br/manuelbandeira04.html#trem
Como é costumeiro na produção poética literária, encontram-se no poema "Trem de ferro" exemplos da utilização de uma linguagem opaca, que chama atenção sobre si. A escolha das palavras, dos sons e das repetições possibilita ao leitor uma interpretação mais vívida do conteúdo.
Manuel bandeira se apropriou da sonoridade das palavras para enriquecer e quase ilustrar o poema. Em um primeiro contato com o texto, não há nada no verso "Café com pão" que imediatamente direcione o pensamento a um trem, não há mesmo qualquer referência direta. No entanto, a repetição desse verso produz uma seqüência de sons oclusivos explosivos, que em alternância com sons fricativos, se assemelha ao barulho proveniente do deslocamento de uma locomotiva sobre os trilhos.
De mesma forma, há em outros versos uma série de sons consonantais (aliterações) capazes de imprimir à leitura uma cadência que sugere a idéia de deslocamento em diferentes velocidades. A repetição de "Muita força", por exemplo, se dá em um ritmo de leitura mais lento, como se representasse o deslocamento por um trajeto elevado, daí a necessidade de mais fogo na fornalha. Já as ocorrências de "Passa ponte / Passa poste / Passa pasto", entre outros, transmite a idéia de que um deslocamento mais veloz foi retomado e o trem passa ligeiramente pela paisagem.
Ainda explorando o âmbito da sonoridade, figura com certa freqüência no poema a repetição de sons vocálicos que parecem reproduzir, quase como onomatopéias, um apito de vapor — os versos "Oô..." — nos quais o próprio arredondamento dos lábios, necessário à emissão do som, lembra um movimento de sopro.
Além dos aspectos fonéticos, existe toda uma seleção vocabular, sobretudo na 3ª e 4ª estrofes, que além de conferir um aspecto de cantiga e folclore, é capaz de transportar o pensamento a uma paisagem interiorana, rural — na qual um trem costuma ser de grande valia.
Os estudos estruturalistas, sobretudo com Saussure, definem o signo lingüístico como arbitrário e convencional, isto é, não há influência direta do plano de expressão no plano de conteúdo. Contudo, houvesse o poeta escolhido outros sons e outra forma, o conteúdo do signo-texto poderia não ter sido tão claramente representado. Assim, encontra-se no poema "Trem de ferro" elementos como a sonoridade, indicativos de que pode haver motivação na relação significante/significado, conforme postulado por Jakobson e a linha formalista.
Agradecimentos à Professora Mariana Quadros e a paciência sem fim,
de quem rega pequenos brotos, poda galhos rotos
e nutre de doce seiva futuro jardim
Análise do filme "Ilha das Flores"
Parte 1: http://www.youtube.com/watch?v=Zfo4Uyf5sgg
Parte 3: http://www.youtube.com/watch?v=6IrGibVoBME
Parte 3: http://www.youtube.com/watch?v=3NddTNoDvm8
A Ilha das Flores, que intitula o curta-metragem de Jorge Furtado, é um local na cidade de Porto Alegre aproveitado como depósito para o lixo. Embora seja o assunto central do filme, o lugar aparece somente quando os instantes finais se aproximam e, antes disso, observa-se a trajetória de um tomate desde a colheita ao descarte por uma dona-de-casa, até que chega ao lixão da ilha, numa dinâmica que escancara, com várias retomadas e em detalhes, o processo de geração de riquezas numa sociedade de consumo, com enfoque particular nas desigualdades desse sistema.
Apesar do enfoque, convém ressaltar que são usados alguns (e bons) recursos para manter um teor de impessoalidade do texto. Um desses recursos é o modo de narrar do ator Paulo José, sem grandes variações no tom de voz, sem exprimir qualquer emoção. O texto é trazido de forma meramente expositiva, com um ar quase enciclopédico, sem argumentações explícitas por conjunções ou outros elementos de co-texto, sem metáforas. Desta forma, trata-se com a mesma naturalidade e gelidez a definição de "humano" e um acidente nuclear. Em contraste com a aparente frieza, em vários momentos são exibidas imagens chocantes, como a do porco abatido, dos judeus vítimas do holocausto nazista e das crianças disputando alimentos entre o lixo que sequer servia de alimento para os porcos.
Há, contudo, várias nuances de humor no decorrer das cenas. Ao mencionar a proibição católica ao lucro na Idade Média, por exemplo, religiosos figuram com expressões fechadas numa pintura; posteriormente, porém, as mesmas figuras sofrem uma manipulação e aparecem sorrindo, imagem que coincide com a explicação acerca do lucro livre. Outro momento, — senão cômico, ao menos inusitado, — é a aparição de uma garrafa de Coca-Cola numa pintura egípcia antiga, no momento em que se diz que "tudo sob e sobre a face da Terra tem valor de troca por dinheiro". Com efeito, a própria cadência repetitiva e dicionarística da narração confere um tom irônico à obra, de certa forma.
Com esses recortes, o filme não apenas aponta as calamidades que ocorrem na Ilha das Flores, mas também as estendem ao Brasil, o que já é sugerido desde o início com a execução da protofonia de "O Guarani", do maestro Carlos Gomes, tema da Voz do Brasil, o programa de rádio governamental que contempla os ocorridos da — diga-se de passagem, vergonhosa — política nacional. De fato, a mesma música anteriormente mencionada, quando distorcida ao som da guitarra, remete de certa forma a Jimmy Hendrix em Woodstock, e estende o protesto ao mundo inteiro, como numa denúncia das misérias que assolam a humanidade.
O curta termina então como uma manifestação velada contra as políticas que há tempos conduzem populações aos lixões, que põem seres humanos abaixo de porcos. Termina em desabafo, com um discurso sobre liberdade, "palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda".
Com meus redundantes agradecimentos ao Professor Luís Carlos,
